Resposta rápida: Quando começar a fisioterapia oncológica? O ideal é antes do tratamento, para registrar a linha de base (ombro, força, perimetria, condicionamento) e preparar o paciente. Mas ela pode entrar em qualquer fase: durante a quimio e a radio, depois do tratamento e nos cuidados paliativos.
A paciente que chegou "só para drenar o braço"
Ela chegou encaminhada para drenagem. Quadrantectomia na mama esquerda, esvaziamento axilar, terceiro ciclo de quimio. O braço estava um pouco maior, sim. Mas o que ela queria contar era outra coisa: não conseguia mais subir a escada de casa sem parar no meio, e a ponta dos dedos formigava desde o segundo ciclo.
Drenagem resolveria uma parte pequena do problema.
Essa é a melhor definição prática de fisioterapia oncológica que eu conheço: olhar para a pessoa inteira que está passando por um tratamento de câncer, e não só para a cicatriz. Fadiga, dor, neuropatia, ombro que não sobe, perda de condicionamento, linfedema, medo de se mexer. Tudo isso é da fisio.
O que é fisioterapia oncológica
É a área da fisioterapia que previne e trata as perdas funcionais causadas pelo câncer e pelo tratamento dele. No Brasil é uma especialidade reconhecida pelo COFFITO, e a Associação Brasileira de Fisioterapia em Oncologia (ABFO) é a entidade da área.
O fisioterapeuta oncológico trabalha em hospital, em centro de oncologia, em clínica e em casa. Atende câncer de mama (o mais comum nos consultórios), próstata, cabeça e pescoço, pulmão, intestino, ginecológico, hematológico e tumores ósseos. Cada um traz um conjunto de problemas diferente, e é por isso que a avaliação começa pelo tratamento, não pela queixa.
O que muda em cada fase do tratamento
Antes de começar (pré-habilitação). Entre o diagnóstico e a cirurgia costuma haver algumas semanas. Dá para medir o ombro, a força de preensão, a perimetria dos dois braços e o teste de caminhada. Isso vira a linha de base. Sem ela, depois da cirurgia ninguém sabe dizer se o braço "sempre foi assim".
Durante a quimio e a radio. O foco é manter. Exercício aeróbico e resistido em intensidade ajustada, cuidado com a fadiga, atenção à neuropatia e ao equilíbrio, mobilidade da região irradiada. É a fase em que o hemograma manda na sessão, assunto que detalhei em exercício durante a quimioterapia.
Depois do tratamento. Recuperar condicionamento e função, tratar aderência de cicatriz, fibrose pós-radio, cordão axilar e linfedema, e ajudar a pessoa a voltar ao trabalho. Muita gente só descobre a fisio oncológica aqui, meses depois, com o braço já inchado.
Doença metastática e cuidados paliativos. O objetivo deixa de ser ganhar e passa a ser preservar autonomia e conforto: transferências, posicionamento, controle de dor, fisioterapia respiratória, orientação à família. Metástase óssea muda o que se pode mobilizar e com quanta carga.
As condutas mais usadas
Não existe um protocolo único, mas algumas condutas aparecem em quase todo plano:
- Terapia física complexa no linfedema: drenagem linfática manual, enfaixamento compressivo, exercícios e cuidados com a pele, e depois a malha. Está em linfedema pós-mastectomia.
- Exercício aeróbico e resistido: é a conduta com melhor evidência para fadiga relacionada ao câncer.
- Cinesioterapia de ombro depois de cirurgia de mama e de axila.
- Treino de equilíbrio quando a neuropatia da quimio tira a sensibilidade dos pés.
- Fotobiomodulação (laser de baixa potência), usada na mucosite oral e estudada no linfedema.
- Fisioterapia respiratória no câncer de pulmão e no pós-operatório.
E educação. Muita. O paciente ouviu de alguém que não pode mais levantar peso com aquele braço, nunca mais. Desfazer esse medo com segurança também é tratamento.
Os alertas que mudam a sessão de hoje
Na oncologia, a mesma paciente pode estar ótima numa semana e não poder fazer exercício na outra. Antes de cada sessão vale conferir:
- Plaquetas, hemoglobina e neutrófilos do último hemograma.
- Febre nas últimas 24 horas.
- Metástase óssea conhecida e onde.
- Cateter implantado (port) e de que lado.
- Membro com linfedema ou em risco: ali não se afere pressão nem se punciona.
- Trombose recente ou anticoagulação.
- Dor nova nas costas com fraqueza nas pernas, que pode ser compressão medular e é encaminhamento no mesmo dia.
Nada disso é para você decidir sozinho. É para saber o que perguntar e quando ligar para a equipe.
Como organizar isso na ficha
No Fisioly existe uma ficha própria de fisioterapia oncológica. Ela abre pela linha do tratamento (cirurgia, quimio, radio, hormônio e imuno, cada um com situação e data), tem uma aba só de alertas de segurança com o hemograma, escalas de fadiga e dor de 0 a 10, neuropatia com grau CTCAE, ECOG e Karnofsky, perimetria dos dois membros com a diferença calculada nível a nível, testes funcionais e o plano com as condutas. Os alertas marcados saem na capa do PDF.
O que ela não faz: não puxa exame do laboratório do hospital (você digita o hemograma), não calcula o volume do membro em mililitros, só a diferença por nível, e não decide conduta por você. As faixas de plaquetas e hemoglobina que ela mostra são referência de guia, com o aviso escrito na tela. O passo a passo da avaliação está em ficha de avaliação em fisioterapia oncológica.
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O que faz a fisioterapia oncológica?
Previne e trata as perdas funcionais causadas pelo câncer e pelo tratamento: fadiga, dor, linfedema, restrição de ombro, neuropatia periférica, perda de condicionamento, problemas respiratórios e, no paliativo, perda de autonomia.
Quando começar a fisioterapia oncológica?
O ideal é antes do tratamento, para registrar a linha de base (ombro, força, perimetria, condicionamento) e preparar o paciente. Mas ela pode entrar em qualquer fase: durante a quimio e a radio, depois do tratamento e nos cuidados paliativos.
Paciente em quimioterapia pode fazer fisioterapia?
Na maioria dos casos sim, com a intensidade ajustada ao hemograma, à fadiga e aos sintomas do dia. Plaquetas muito baixas, febre e neutropenia importante pedem suspender ou reduzir o exercício e conversar com a equipe médica.
Fisioterapia oncológica é especialidade?
Sim. A Fisioterapia Oncológica é reconhecida como especialidade pelo COFFITO, e a Associação Brasileira de Fisioterapia em Oncologia (ABFO) representa a área.
Qual a diferença entre fisioterapia oncológica e drenagem linfática?
A drenagem linfática manual é uma das condutas, usada principalmente no linfedema. A fisioterapia oncológica é bem mais ampla e inclui exercício, cinesioterapia, treino de equilíbrio, fisioterapia respiratória, controle de dor e cuidado paliativo.
Fontes e referências
- COFFITO: resoluções sobre a especialidade de Fisioterapia OncológicaReconhecimento e disciplina da especialidade.
- ABFO: Associação Brasileira de Fisioterapia em OncologiaEntidade da área no Brasil.
- Campbell KL et al. Exercise Guidelines for Cancer Survivors (ACSM, 2019)Recomendações de exercício para fadiga, função e qualidade de vida.
- INCA: estimativa de incidência de câncer no BrasilTipos de câncer mais frequentes no país.